Quando falamos em tratamento para depressão, transtorno bipolar ou problemas de memória e atenção, é natural pensar em medicações e psicoterapia. Mas, nos últimos anos, a fotobiomodulação transcraniana (FBMt) – o uso de luz em faixas específicas para modular o cérebro – vem se consolidando como uma abordagem complementar promissora, com impacto em metabolismo cerebral, regulação emocional e plasticidade neural. É a fotobiomodulação transcraniana na psiquiatria.1,2
Este texto foi pensado tanto para profissionais (psiquiatras, neurologistas, psicólogos) quanto para pacientes curiosos sobre o tema. A ideia é explicar, em linguagem clara, mas com profundidade, o que é FBMt, o que a ciência já mostra e como dispositivos como o Capacete Neurollux (uso clínico) e o Boné Infrallux (uso domiciliar supervisionado) podem se integrar a um plano terapêutico já existente, sem substituir medicações nem psicoterapia.
O que é fotobiomodulação transcraniana, em termos simples?

Principais categorias de dispositivos de fotobiomodulação transcraniana (FBMt): (a) laser de mão, (b) conjunto de LEDs, (c) capacete de LED ou laser, (d) capacete com LEDs localizados, (e) LED ou laser intranasal, (f) faixa de cabeça com LEDs e (g) aplicação com agulhas de laser. Cada categoria apresenta características específicas de distribuição da luz, profundidade de penetração e aplicabilidade clínica.
Fonte: ERNANDES, F.; OLIVEIRA, S.; MONTEIRO, F. et al. Devices used for photobiomodulation of the brain—a comprehensive and systematic review. Journal of NeuroEngineering and Rehabilitation, [S.l.], v. 21, p. 53, 2024. Disponível em: https://jneuroengrehab.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12984-024-01351-8. Acesso em: 20 mar. 2026.
A fotobiomodulação transcraniana é uma técnica não invasiva que utiliza luz infravermelha próxima (near‑infrared) aplicada sobre a cabeça. A finalidade é modular o funcionamento das células cerebrais.
Em vez de “dar choques” ou estimular o cérebro com corrente elétrica, a FBMt trabalha com fótons de luz que são absorvidos por estruturas dentro das mitocôndrias, como o citocromo c oxidase, favorecendo a produção de energia (ATP) e a oxigenação local.3
Na prática, o paciente usa um dispositivo em formato de capacete ou boné equipado com emissores de LED em comprimentos de onda terapêuticos (e com uma dose de energia cuidadosamente calculada). A sessão é indolor, de ~20 minutos e não exige sedação.
Para o especialista, a FBMt representa uma forma de “otimização bioenergética” do córtex cerebral, principalmente em regiões frontais associadas à regulação emocional, atenção, funções executivas e velocidade de processamento.
Para o paciente, a experiência costuma ser vista como algo simples, confortável e de fácil adesão.
Por que a FBMt interessa tanto à psiquiatria?
No transtorno depressivo maior, mesmo após um tratamento farmacológico que leva o paciente à remissão, a grande maioria dos indivíduos continua apresentando sintomas residuais que impedem uma recuperação completa e o retorno ao funcionamento de base.

Este infográfico mostra como uma inflamação persistente no corpo pode afetar o cérebro e aumentar o risco de depressão. Ele explica, em passos simples, que substâncias inflamatórias (citocinas) podem desregular a atividade de mensageiros químicos, sobrecarregar os neurônios, reduzir fatores de proteção como o BDNF e alterar hormônios do estresse, como o cortisol. Quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, o cérebro fica mais vulnerável a sintomas como tristeza intensa, perda de prazer, cansaço, dificuldade de concentração e lentidão de pensamento.
(Fonte)
Em muitos pacientes, permanecem queixas persistentes, como fadiga, problemas de sono, dificuldade de concentração e anedonia (uma profunda perda de interesse, prazer e motivação).4 Vale dizer que o transtorno bipolar (seja do tipo I ou do tipo II) também partilha de várias dessas características.
É justamente nesse espaço que a FBMt começa a se destacar como uma estratégia adjuvante. Entre os potenciais efeitos fisiológicos observados em estudos estão:
- Melhora da função mitocondrial, com aumento de produção de ATP em neurônios e células de suporte;
- Modulação do fluxo sanguíneo cerebral regional, com incremento de oxigenação em áreas-alvo;
- Efeitos anti‑inflamatórios e antioxidantes ao nível celular;
- Facilitação da neuroplasticidade, com potencial impacto em redes de humor e cognição5.
Ou seja, em vez de atuar diretamente em neurotransmissores como fazem os antidepressivos, a FBMt trabalha no “chão de fábrica” da célula, oferecendo condições bioenergéticas mais favoráveis para que o cérebro responda melhor às demais intervenções.
O que dizem os estudos sobre FBMt em depressão e transtorno bipolar?

A principal diferença entre um bipolar com fases de mania (tipo I) e um com fases de hipomania (tipo II) é a presença de sintomas psicóticos no tipo I. Além disso, no tipo II, a depressão é prevalente e a euforia é muito menos exuberante.
Diversas revisões sistemáticas e meta‑análises recentes6 têm reunido os resultados de ensaios clínicos com FBMt na depressão. De forma geral, os trabalhos apontam:
- Redução estatisticamente significativa de sintomas depressivos, quando comparada a placebo ou ao tratamento padrão isolado;
- Boa tolerabilidade, com poucos efeitos adversos relatados (em geral, queixas leves e transitórias, como discreto calor local ou sonolência);
- Possível efeito mais pronunciado em sintomas como retardo psicomotor, fadiga e aspectos cognitivos da depressão.
Em transtorno bipolar, uma linha de pesquisa particularmente interessante foca em pacientes em remissão clínica, mas com queixas cognitivas persistentes. Estudos com estimulação infravermelha pré-frontal demonstraram melhora em tarefas de atenção, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva após ciclos de sessões, sem desencadear episódios de mania ou hipomania nos protocolos avaliados.7.8
Isso reforça a ideia de que a FBMt pode ser especialmente útil em:
- Depressão resistente com sintomas residuais;
- Pacientes com humor estabilizado, mas com comprometimento cognitivo;
- Quadros em que fadiga, lentificação e “neblina mental” são queixas centrais.
Ainda não se trata de um “novo antidepressivo”, mas de uma forma de apoiar o cérebro em múltiplas frentes biológicas, somando‑se ao que já é feito com medicamentos e psicoterapia.
Como o Capacete Neurollux se insere na clínica?

O Capacete Neurollux foi desenhado para uso em ambiente de consultório, sob supervisão profissional, visando aplicar protocolos de FBMt em regiões cerebrais envolvidas em regulação de humor e cognição.
Em um consultório de psiquiatria ou neurologia, o fluxo pode ser pensado de forma estruturada:
- Avaliação inicial
- Diagnóstico psiquiátrico ou neurológico bem estabelecido;
- Revisão de medicação atual, psicoterapia em curso e comorbidades;
- Aplicação de escalas de humor e de cognição, se pertinente.
- Planejamento do protocolo com Neurollux
- Definição de frequência de uso;
- Número de semanas do ciclo inicial;
- Áreas‑alvo e parâmetros dentro de faixas já exploradas na literatura.
- Acompanhamento durante as sessões
- Monitoramento de sintomas, sono, energia, efeitos adversos;
- Ajustes graduais, se necessários, sempre mantendo o caráter adjuvante.
- Reavaliação ao final do ciclo
- Repetição de escalas de humor e cognição;
- Decisão sobre manutenção, espaçamento ou pausa do protocolo.
Na comunicação com o paciente, é essencial reforçar que o Neurollux não substitui o tratamento que ele já faz, mas sim oferece um suporte extra ao cérebro, permitindo, em alguns casos, uma resposta mais plena ao plano terapêutico global.
Boné Infrallux: continuidade em casa

Enquanto o Neurollux cumpre o papel principal no ambiente clínico, o Infrallux pode ser visto como uma extensão do cuidado, pensado para uso domiciliar, sempre com prescrição e acompanhamento profissional.
Isso é especialmente relevante em transtornos crônicos, nos quais a regularidade da intervenção é um fator importante de sucesso.
Um possível modelo de integração seria:
- Fase intensiva em clínica com o Capacete Neurollux
O paciente realiza um ciclo estruturado de sessões presenciais na clínica, com monitorização sistemática de sintomas. - Fase de manutenção em casa com o Boné Infrallux
Após responder bem ao protocolo inicial, o paciente pode passar a realizar sessões em casa com o Infrallux, seguindo um plano detalhado compartilhado pelo médico. - Check‑ins periódicos
Consultas presenciais ou on-line para revisar sintomas, aderência e integração com medicação e psicoterapia.
Para o paciente, isso representa mais autonomia e conforto, sem perder a segurança de um tratamento guiado.
Para o profissional, permite manter a modulação biofotônica ao longo do tempo, com menor sobrecarga de agenda e maior aderência a longo prazo.
Como explicar a FBMt para o paciente sem criar falsas expectativas?
Um ponto sensível na adoção de qualquer tecnologia em saúde mental é o manejo das expectativas. Alguns cuidados na comunicação podem fazer diferença:
- Enfatizar que se trata de uma terapia complementar, baseada em luz, com evidências crescentes, mas que não é “cura milagrosa”;
- Explicar que o objetivo é melhorar a energia e a saúde das células do cérebro, favorecendo o efeito das demais terapias;
- Reforçar que a resposta é individual: algumas pessoas sentem melhora considerável, outras percebem mudanças mais discretas;
- Destacar o bom perfil de segurança observado até agora, mas mantendo um canal aberto para relato de qualquer desconforto.
Levando a fotobiomodulação transcraniana para a prática clínica
Se você é psiquiatra, neurologista ou psicólogo e deseja incorporar a fotobiomodulação transcraniana às suas terapias, o primeiro passo é se familiarizar com a ciência por trás da técnica e com parâmetros seguros de uso.
A partir daí, será possível estruturar protocolos claros, documentar desfechos e comunicá-los com transparência aos pacientes.
Referências bibliográficas
- MONTAZERI, Katayoon et al. Photobiomodulation therapy in mood disorders: a systematic review. Lasers in Medical Science, v. 37, n. 9, p. 3343–3351, dez. 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36404359/. Acesso em: 19 mar. 2026.
- CASSANO, Paolo et al. Review of transcranial photobiomodulation for major depressive disorder: targeting brain metabolism, inflammation, oxidative stress, and neurogenesis. Neurophotonics, v. 3, n. 3, p. 031404, 4 mar. 2016. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4777909/. Acesso em: 19 mar. 2026.
- LIU, Hanli et al. Transcranial photobiomodulation with near-infrared light: a promising therapeutic modality for Alzheimer’s disease. Neural Regeneration Research, v. 18, n. 9, p. 1944–1945, 5 jan. 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10233774/. Acesso em: 19 mar. 2026.
- NIERENBERG, Andrew A. et al. Residual symptoms in depression: prevalence and impact. The Journal of Clinical Psychiatry, v. 76, n. 11, p. e1480, 25 nov. 2015. Disponível em: https://www.psychiatrist.com/jcp/residual-symptoms-depression-prevalence-impact/. Acesso em: 19 mar. 2026.
- Idem ao 2.
- JI, Qipei et al. Photobiomodulation improves depression symptoms: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Frontiers in Psychiatry, v. 14, p. 1267415, 31 jan. 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10866010/. Acesso em: 19 mar. 2026.
- BARRETT, Douglas W. et al. Cognitive improvement and prefrontal network interactions in individuals with remitted bipolar disorder after transcranial infrared laser stimulation. Frontiers in Psychiatry, v. 16, p. 1547230, 30 jan. 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39950176/. . Acesso em: 19 mar. 2026.
- O’DONNELL, Courtney M. et al. Transcranial infrared laser stimulation improves cognition in older bipolar patients: proof of concept study. Journal of Geriatric Psychiatry and Neurology, v. 35, n. 3, 2 fev. 2021. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0891988720988906. Acesso em: 19 mar. 2026.
